sábado, 17 de agosto de 2013

INCLUSÃO, UMA COISA SÉRIA!

Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais, organizada pela UNESCO, em Salamaca, em Junho de 1994, consagrou um conjunto de conceitos como “Inclusão” e “Escola Inclusiva” que passaram a fazer parte da gíria entre os profissionais ligados à educação.
Para muitos a Declaração de Salamanca representa a consagração de uma educação que atende às diferenças individuais, e ninguém exclui na mesma escola. Para outros, trata-se de um novo discurso educacional adequado a uma nova economia mundial que integra ricos e pobres, trabalhadores e desempregados, normais e anormais num mesmo sistema de exploração, mantendo todas as abissais desigualdades sociais. Tudo pode ser rentabilizado e gerar mais valias.
O tema não é novo. Durante séculos o debate sobre a exclusão/integração esteve centrado sobre a questão da natureza humana. A primeira fronteira entre os homens está na concepção que cada um vai criando sobre a natureza humana. A melhor prova disso é a falta de unanimidade que existe quando são colocadas questões, tais como:  O que é o homem?
Todos os homens são iguais ou uns são mais iguais que outros? A natureza de um branco é igual à de um negro?. Todas as definições pressupõe sempre uma relação de integração/exclusão. A única saída seria evitar todas as definições sobre o Homem. Mas é isso possível?
Etimologicamente, a palavra natureza deriva do latim natura (gnatura), natus, gnetus, nasci (nascer), que, por sua vez, provém de uma raíz comum. Gena, ou, em indo-europeu, g`n, que possui formas verbais em quase todas as línguas. A tradição filosófica consagrou que a natureza de algo é o seu ser, a sua essência ou substância. A  natureza humana é pois um conceito ideológico que tem servido para fundamentar as mais dispares teorias políticas e educacionais.
1. 1.      Natureza da Natureza Humana
A matriz do pensamento ocidental é grega, e para a formação desta a medicina desempenhou um papel incontornável. Werner Jaeger na sua monumental obra Padeia -, demonstrou como no século V a.C, o pensamento grego se cinde em duas correntes que acabaram por modelar as nossas concepções actuais sobre educação. Ambas se apoiam em duas visões divergentes sobre a natureza humana.
Os sofistas dissociando a natureza física das convenções humanas, acabaram por atribuir a estas últimas o fundamento de todas as desigualdades entre os homens. A  natureza humana foi entre eles concebida de uma forma igualitária. “Bárbaros e gregos, temos todos a mesma natureza, em todos os aspectos”, afirma o sofista Ateniense Antifonte (A Verdade).
O fundamento das diferenças nacionais e das desigualdades entre os homens não radica na natureza, mas nas convenções sociais decorrentes de relações de domínio que os homens foram estabelecendo entre si. Retenhamos esta concepção, pois a mesma irá inspirar no século XVIII a emergência de uma importante vertente do iluminismo e muitas das nossas ideias contemporâneas.
A oposição a estas ideias é frequentemente associada a Sócrates (filho de uma parteira), Platão, mas também a Aristóteles (filho de um médico). Como demonstrou Jaeger, a sua fonte de inspiração comum foi a medicina do tempo. A medicina hipocrática forneceu-lhes alguns conceitos científicos que cada um a seu modo  utilizou de forma magistral.
O primeiro conceito foi o de que o homem é em grande parte produto das condições naturais em que nasce e se desenvolve. Hipócrates recomenda aos aprendizes da arte:
“Quem quiser aprender bem a arte de médico deve proceder assim: em primeiro lugar há-de ter presente as estações do ano e os seus efeitos, pois nem todas são iguais mas diferem radicalmente quanto à sua essência específica e quanto às suas mudanças”.  A partir desta análise, o médico, estaria apto a deduzir as enfermidades de uma dada população. A ordem do Todo determina o estado de cada coisa singular, determinando-lhe a sua natureza.
O segundo foi o da harmonia global que reina entre todas as coisas. As enfermidades para Hipocrates não são mais do que as consequências resultantes da sua alteração da ordem estabelecida.
O terceiro conceito essencial foi o da norma que deve, em cada caso, ser seguida para que o equilíbrio não se rompa. Afim de manter o equilíbrio que permite a saúde, Dócles, na sua obra Da Dieta, estabelece um vasto conjunto de prescrições que cada um deve cumprir desde que acorda.
A concepção natureza humana é assim definida de forma estática, para o equilibrio da qual é necessário a manutenção da ordem estabelecida.
Com base nestes conceitos, Sócrates, Platão e Aristóteles, defenderão cada um a seu modo, a diversidade da natureza intrínseca dos homens. Platão dirigindo-se aos cidadãos escreve: “Cidadãos, deveremos dizer-lhes segundo a nossa fábula, sois todos irmãos, e no entanto Deus vos constituiu de modo muito diferente. Alguns de vós têm o poder de comandar, e na composição destes ele fez entrar o ouro; daí o facto de terem também direito às maiores honras. Outros foram feitos de prata, para serem auxiliares.
E outros ainda, que são os lavradores e os artesãos, foram feitos de cobre e ferro; e essas espécies geralmente se conservarão em seus filhos” ( A República). Aristóteles, na sua obra Política, demonstra como as tendências, capacidades e aptidões humanas são definidas pela região de origem, sendo todavia de natureza desigual: “Desde o nascimento, alguns estão destinados a mandar e outros a serem mandados…”
. O mesmo é dizer uns quando nascem estão destinados a serem senhores, outros escravos (Politica).
A definição da norma é essencial para manter a harmonia do todo, a integração das suas partes, e excluir tudo o que a possa perturbar. Etimológicamente, “norma” é uma palavra latina que significa esquadro. Rapidamente passou  a significar o que deve ser. O estado normal indicará o estado habitual e ao mesmo tempo o estado ideal. A ameaça à norma está na anomalia, do grego Ómolos  que significa desigual, escabroso. O Ómolos é o irregular, o rugoso, o sem lei, o sem valor (Ch. Descamps). Para manter a Ordem no Cosmos é necessário excluir todos os Ómolos.
Compreende-se assim, a razão pela qual, na Antiguidade, a matança de crianças deficientes era encarada como um procedimento natural. Elas não tinham lugar na Ordem estabelecida.
2. 2.      As Culpas da Natureza Monstruosa
Da Antiguidade à Renascença o conhecimento do mundo vivo pouco mudou.  O que se alterou foram os critérios de exclusão. Durante o Renascimento, na natureza, tudo é possível, porque o poder criador de Deus não têm limites. “Todos os possíveis encarados pela imaginação humana eram realizados pela vontade divina” (François Jacob, A Lógica da Vida). Nada acontece ao acaso, tudo tem uma causa natural.
Quando uma rapariga nasce com duas cabeças ou quando um homem tem, à guisa de cabelos “pequenas serpentes vivas”, escreve Montaigne, é porque há excesso de semente. Quando o homem nasce sem braço ou sem cabeça é, ao contrário, por insuficiência de semente. Mas se uma mulher deita ao mundo um filho com cabeça de cão, a culpa não é da natureza, que “faz sempre o seu semelhante”, mas da mulher, que se entregou  a actos repreensíveis com um animal (Ensaios).
Estes seres são assim reprovados não por serem monstruosos, mas porque testemunham comportamentos pecaminosos. A sua exclusão adquire a dimensão de uma reparação moral. É em nome da moralidade que devem ser excluídos.
3. 3.      A Hierarquia dos Seres
Até ao final do século XVIII, como assinala François Jacob, continuou a não existir uma fronteira nítida entre os seres e as coisas. O ser vivo prolongava-se sem hiato até ao inanimado. A profunda alteração deu-se na classificação dos seres segundo categorias rigidamente determinadas. Numa longa cadeia hierarquica tudo tem um lugar determinado, uma categoria ou uma espécie definida.
A ciência moderna procurou determinar com rigor o lugar para os diferentes Ómolos. Lineu, no seu Systema Naturae, incluiu a espécie humana no reino animal, sob uma única designação específica – Homo sapiens – e dividiu-a em seis raças, seguindo um critério em grande parte geográfico: europeia, amerindeana, asiática, africana, selvagem e monstruosa. Esta última raça, como escreve Clara Queiroz,  sobrepunha-se um pouco a todas a outras por ser constituída por indivíduos com malformações passíveis de ocorrer em qualquer região.
Estes indivíduos adquiriam assim um estatuto à parte, num sistema de classificação do seres vivos, embora não possam ser considerados propriamente humanos. As semelhanças físicas com outros homens não bastam.
No topo da hierarquia dos seres humanos surge a raça branca. Blumenbach, em 1775, o fundador da antropologia, sustenta que esta raça é a mais primitiva e nobre dela derivando todas as outras por um processo de degenerescência. Buffon, na sua História Natural, partilhará deste ponto de vista.
Mas não basta ser branco, advertiu Réne Descartes, é preciso também não ser um louco, cujo “cérebro está perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bílis” (Meditações Metafísicas). Num universo organizado, o lugar dos loucos, não é na rua, mas atrás dos muros do manicómio. Principiava desta forma o modelo da segregação.
Na sequência de uma vasta acção policial, em 1657, o hospital central de Paris, acolhe numa só manhã cerca de seis mil pobres, loucos, desempregados, viciosos, profanadores. Os doidos ocupam o lugar dos leprosos.  Na hierarquia dos seres, os loucos são uma ameaça à razão triunfante da modernidade.
3.1. 3.1.  A Escola Excludente
A escola até ao final do século XVIII não admitia no seu seio todos aqueles que estavam excluídos da ordem social. Poderia ser de outra forma? Claro que não. Os únicos que mereceram algum cuidado forma os orfãos e as crianças abandonadas. Era facilmente postas a render, ao serviço da Igreja ou na obra de povoamento das colónias pelo Estado.
Em Portugal esta utilização está amplamente documentada. Por toda a Europa foram raras as tentativas de educação dos deficientes. Entre as primeiras conta-se a levada  a cabo pelo frade Pedro Ponce de León, em meados do século XVI, destinada à educação de 12 crianças surdas. É preciso esperar pelo século XVIII para que uma nova visão da deficiência surja. Diderot teve neste aspecto um papel importante, embora pouco divulgado.
Em 1749 publica a “Carta sobre os Cegos para Uso dos que Vêem”, e dois anos depois, a “Carta sobre os Surdos e Mudos para Uso dos que Ouvem e que Falam”. Cegos, surdos-mudos, revelam nesta espécie de manifesto capacidades insuspeitas. É neste contexto que o abade Charles Michel de L`Epice criou uma escola pública para surdos (1775), e Velentin Hauvy fundou um Instituto para crianças cegas (1784). No ensino como na sociedade, as diferenças genéticas reais e imaginárias entre os homens, continuavam a ser um factor de exclusão social sobre o qual se alicerçavam todas as formas de desigualdade. Não é de admirar a raridade destas iniciativas de apoio aos deficientes.
4. 4.      A Humana Natureza Humana
Na segunda metade do século XVIII, assistiu-se a um verdadeiro cataclismo nas concepções vigentes sobre a natureza humana. A concepção do universo estático começa a ser substituída por a ideia de um universo em evolução, sendo o homem encarado como um produto da mesma.
Os “sofistas” do tempo, os enciclopedistas, demonstraram que o que diferenciava os homens eram as convenções sociais e a educação. As suas ideias acabaram por incendiar o mundo.
Na Revolução Americana e depois na Revolução Francesa proclama-se a igualdade de direitos de todos os homens (1776 e 1789). Ambas as Declarações assentam na pressuposição da universalidade da natureza humana e dos seus valores. A Natureza de cada homem reporta-se a uma Humanidade ideal que está em todos, mas em ninguém em particular. A partir daqui este ideal, torna-se numa referência fundamental que orienta inúmeros movimentos políticos e educativos em todo o mundo.
Esta ambígua igualdade formal, que num primeiro momento interessa á ascensão da burguesia, torna-se perigosa. A comunidade científica procura então “separar as faixas de indivíduos que se revelam um pouco menos iguais, e a confirmar a sua diversidade para os poder excluir dum jogo em que não há lugar para eles” (F. Ongaro Basaglia ).
Malthus, na segunda edição do Essay on the Principle of  Population (1803), confirma a necessidade da exclusão social devido à carência de recursos para todos os homens:
“O homem que nasce num mundo já possuído pelos outros, quando não pode obter os meios de subsistência dos pais sobre quais pode ter justas pretensões, e se a sociedade não quer o seu trabalho, não se pode arrogar de nenhum direito à mínima porção de alimento e não tem nenhum motivo para estar onde está. Não há no grande banquete da natureza um lugar desocupado para ele”.
Resta-lhe apenas a exclusão social, e a eventual compaixão dos que têm assento no banquete. Sir Francis Galton, primo de Darwin, em Hereditary Genius (1869) esforçou-se por demonstrar com base em estatísticas e em estudos biológicos, como a inteligência e a estupidez eram hereditárias. Daqui retirou a conclusão que deviam ser adoptadas medidas para favorecer as raças e as famílias mais dotadas, mas também para diminuírem as taxas de reprodução dos que se encontram  no extremo inferior da escala social. Estas ideias não tardaram a inspirar muitos outros cientistas e movimentos políticos.
Estas medidas não se enquadravam todavia no espírito da nova economia capitalista. A exclusão representava um enorme desperdício de recursos. Por isso mesmo foi rapidamente substituída por um sistema de segregações. Neste, todos os marginais, raças inferiores e até deficientes, sem perderem o seu estatuto, são postos aos serviço do interesse geral, que neste aspecto coincidia com os grandes interesses particulares.
A Casa Pia de Lisboa, fundada 1780, por exemplo, recolhe todo o tipo de marginais, como prostitutas, vagabundos e crianças abandonadas, pondo-as a render nas oficinas do Estado. Das prisões saem para as obras públicas legiões de trabalhadores. Os Asilos e Orfanatos, onde se verificam elevadas taxas de mortalidade,  são instituições em tudo menos ociosas. O lema da burguesia que só o trabalho regenera os corpos viciosos, inspira todas estas instituições.
Michel Foucault, demonstrou que a partir de 1820, as prisões deixaram de ser vistas como simples depósitos de criminosos, para serem encaradas como fábricas de delinquentes úteis ao sistema. Delas saíam as operárias do prazer para alimentarem os prostíbulos, mas também grupos que eram utilizados contra os operários, nas lutas políticas e  sociais, em missões de vigilância, de infiltração para impedir ou romper greves, etc.
“A partir do momento que alguém entrava na prisão, punha-se em funcionamento um mecanismo que o tornava infame; e quando de lá saía, nada mais podia fazer que tornar –se delinquente. Caía necessariamente no sistema que dele fazia um proxeneta, num polícia ou um informador. A prisão profissionalizava”.
As Declarações igualitaristas de finais do século XVIII são agora reinterpretadas á luz da nova política de segregação. John M. Daniel, em 1864, confirma que “segundo os advogados científicos da diversidade das raças, os Negros não são homens no sentido em que este termo é utilizado na Declaração da Independência”. A partir daí somam-se as “provas científicas” desta diversidade que fundamenta todas as segregações.
Entre nós, Júlio de Mattos, no prefácio à sua História Natural (1880),hierarquiza as raças humanas, colocando no topo a raça branca, e no extremo oposto os aborígenes australianos. Ernest Haeckel, em Maravilhas da Vida (1904), afirma que sob o ponto de vista psicológico, por exemplo, os australianos, são mais vizinhos dos mamíferos (macacos, cães) do que dos europeus.
Um número crescente de reputados cientistas não se cansava de demonstrar, não apenas a falsidade da igualdade das raças, mas também os perigos de semelhantes ideias. Entre nós, atingiram grande sucesso as obras de Gustavo le Bon, uma verdadeira autoridade na matéria. Na sua obra “Leis Psicológicas da Evolução dos Povos” (1910), confirma a invariabilidade mental dos caracteres rácicos:
“Cada povo possui uma constituição mental fixa, como os seus caracteres anatómicos, constituição de que derivam os sentimentos, os pensamentos, as instituições, as crenças e as artes desse povo”. Uns pertencem a raças superiores e outros inferiores. Baseado em estudos científicos, condena o cruzamento das raças pela degenerescência que provoca, aplaudindo, entre outras coisas, o extermínio de negros nos EUA quando estes se revoltam. Lamenta todavia a impossibilidade de não poderem ser expulsos todos os chineses, devido às carências de mão de obra que tal medida iria provocar. Tudo em nome da pureza da raça superior.
A antropologia, a biologia e outras ciências da vida, irão sistematizar as diferenças entre os homens, conduzindo à célebre escala quantitativa da humanidade, de Frintz Lenz, publicada em Human Heredity (1931). Não foi apenas na Alemanha Nazi que estas ideias foram perfilhadas, mas foi lá como em nenhum outro Estado que deram lugar a uma política sistemática de extermínio.
4.1. Escola Segregadora
Desde o início do século XIX até aos anos 60 que os deficientes viveram sob signo da segregação, mas nem todos eram tratados da mesma forma. O surdos-mudos e os cegos foram mais rapidamente integrados no sistema produtivo. Os deficientes mentais ficaram muitíssimo mais tempo à porta das instituições educativas. Em todo o caso, a integração continuava a ser sinónimo de segregação.
Em Portugal a primeira instituição destinada a deficientes foi o Instituto de Surdos-Mudos e Cegos, criado em 1822, por iniciativa de José António Freitas Rego. Lentamente foram surgindo, à margem das escolas regulares, outras instituições com funções assistências e educativas destinadas a este tipo de deficientes.
Quanto à educação dos deficientes mentais os caminhos foram mais tortuosos. Em 1871 será criada a primeira Casa de Detenção e Correcção para menores delinquentes “desobedientes e incorrigíveis”, e apenas em 1911, o médico António Aurélio da Costa Ferreira inicia, de forma sistemática, a obra de assistência aos anormais mentais.
A primeira iniciativa assumida pelo Estado na educação das crianças anormais, ocorreu em 1922, quando o Instituto Médico-Pedagógico da Casa Pia de Lisboa passou para a Tutela do Ministério da Instrução Pública, e recebe a designação de Instituto Aurélio da Costa Ferreira.
É preciso esperar pelo fim da segunda Guerra Mundial para ocorrerem novas medidas a favor dos deficientes mentais. O Dec.-Lei 35.801, de 3/8/1946, permite a criação de “classes especiais de crianças anormais” anexas aos estabelecimentos de ensino primário, sob a orientação Instituto Aurélio da Costa Ferreira. O número destas classes especiais não param de crescer: Tiveram inicio em 1947. em 1953 eram já 31, atingindo as 72 em 1962 ( José António Lopes Santos, 1999).
Paralelamente outras instituições foram surgindo para apoio assistêncial e educativo aos deficientes mentais, promovidas pelas mais diversas entidades e com as mais dispares finalidades.
A intervenção do Estado no apoio aos deficientes é reforçada nos anos 60.  A sociedade portuguesa mostrava-se então muito sensibilizada para esta questão, devido em grande parte, ao aumento do número de deficientes provocado pela guerra colonial. Seja como for, em 1964, é criado o Serviço de Educação de Deficientes, no âmbito do Instituto de Assistência a Menores  (da Direcção-Geral da Saúde e Assistência). Entre 1965 e 1970 organizou 8 escolas especiais para deficientes visuais, 10 para deficientes auditivos e 11 para deficientes mentais. Algo parecia estar efectivamente a mudar.
5. 5.      Integrar na Desigualdade
A emergência a independência das antigas colónias, após a II Guerra Mundial, trouxe consigo um discurso de maior abertura às diferenças raciais. A exclusão racial desapareceu para dar lugar ao discurso da integração das raças. O árabe de origem argelino tornou-se subitamente francês. O preto moçambicano, guineense ou angolano, tornou-se português. Por todo o lado o conceito de Natureza Humana tornou-se mais permeável às diferenças.
A penúria de mão-de-obra provocada pela Guerra, deixa o “mundo ocidental” numa situação desfavorável para competir com os avanços tecnológicos do “Bloco Comunista”. Inúmeros estudos, nomeadamente conduzidos pela OCDE, FMI e o Banco  Mundial revela que a “industria do ensino” revela uma espantosa improdutividade, desperdiçando um enorme potencial humano devido a preconceitos sociais, organização e métodos de ensino, etc.
Até à crise económica dos anos 70, a teoria do “capital humano” inspirou muitos dos esforços integrativos no ensino
Edgar Morin, numa obra que marcou uma época (O Paradigma Perdido: A Natureza Humana, 1973), afirmava que a definição do homem não podia continuar a assentar apenas num único dos seus aspectos. “Precisamos de ligar o homem razoável (sapiens) ao homem louco (demens), ao homem produtor, ao homem técnico….”. O homem é só apreensível na sua diversidade e hipercomplexidade. A integração  estava na ordem do dia em termos filosóficos.
Mas nada mais ingénuo do que pensar que todas as diferenças subitamente havia desaparecido. Nos EUA Jurgen Ruesch, em 1969, interrogava-se sobre quantos eram os socialmente inaptos. Só neste país, no auge da sua prosperidade económica, constatava que a maioria da sua população, estava literalmente afastada do processo produtivo. Apenas uma minoria intervinha na criação das riquezas e na sua acumulação. A maioria apenas participava no seu consumo, através dos múltiplos mecanismos assistênciais. Este era o mecanismo de integração que se havia criado.
Ultrapassando as diferenças epidérmicas, os biólogos concentraram-se, a partir dos anos 60, no DNA (ácido desoxirribonucleico). À acção de um ou mais genes, passaram a ser atribuídas a responsabilidade por manifestações tão diversas como agressividade, homossexualidade, criminalidade, etc. O discurso científico procurou fundamentar a diferença ao nível molecular. Externamente todos revelamos certas semelhanças, mas a genética molécular descobriu abismos entre os homens.
Arthur  Jensen, em 1969, após inúmeros estudos demonstrou que cerca de 80% do quociente de inteligência era atribuível a factores genéticos e só 20% à componente ambiental.  O discurso da diferenciação genética voltava. Ultrapassando o nível molecular, os etnologos, neurobiologistas, passaram a falar de predisposições, isto é, um conjunto de factores de natureza biológica que conduzem o indivíduo a assumir certas atitudes em vez de outras.  Henri Laborit, neste campo fez escola, ao descobrir três cérebros no cérebro humano.
A predominância de um ou outro, conduz o homem naturalmente a certas predisposições comportamentais. Todas estas teorias transformam o discurso da exclusão, no discurso da auto-exclusão. Certos indivíduos, respondendo a predisposições naturais, auto-excluem-se da sociedade, transformando em inadaptados, marginais, etc.  As elites dominantes podiam finalmente dormir descansadas: o princípio da desigualdade genética estava reposto.
5.1. Escola Integrativa
Em finais dos anos 60, nas escolas portuguesas começam as primeiras experiências de integração de deficientes em estabelecimentos regulares de ensino.
As declarações de princípios e a publicação de legislação em muitos países iam no sentido de acabar com o profundo isolamento a que até aí os deficientes haviam estado votados- particularmente os deficientes mentais -, mas também criar-lhes condições que lhes permitissem o acesso à vida, separando-os o menos possível da sociedade. Reafirmou-se também o direito das crianças com necessidades educativas especiais, a terem uma educação adaptada e fornecida em escolas regulares (José António Lopes Santos, 1999). As escolas tinham que se adaptar às crianças e não elas às escolas.
Em Portugal este processo de integração terá sido feito em duas etapas fundamentais: Numa primeira fase entre 1973/74 e 1982/83, procedeu-se à reorganização dos serviços e criaram-se estruturas regionais, publicou-se importante legislação sobre o assunto, mas em termos de resultados, os passos dados foram modestos. Na segunda fase, entre 1983/84 e 1994, o sistema expandiu-se e consolidou-se o “ensino integrado”, assegurado por equipas de ensino especial espalhadas pelo país.
O grande salto qualitativo deu-se, só a partir de 1984, quando se alterou o próprio conceito de crianças com necessidades educativas especiais. Estas crianças deixam de ser apenas os cegos, os surdos-mudos, etc., para serem também todas aquelas que no seu percurso escolar são marcadas pelo insucesso.
Assiste-se a partir de então ao lançamento de diversas iniciativas destinadas a estas crianças com dificuldades educativas. Em 1987, é criado o PIPSE- Programa Interministerial para a Promoção do Sucesso Escolar. Pouco anos depois, a figura das chamadas “escolas de intervenção prioritária”, abrangendo todas as escolas que “sejam frequentadas por um número significativo de crianças com dificuldades de aprendizagem, inadaptadas ou portadoras de deficiência”. Outras iniciativas prosseguiram nesta mesma direcção.
6. 6.      A Grande Inclusão
Os anos oitenta foram marcados pela globalização dos capitais financeiros, mas também das comunicações. Aparentemente também se mundializou a informação, mas não o conhecimento que contínua a ser coisa rara. As diversas economias foram todas incluídas numa vasta economia mundial comandada pelas grandes multinacionais. Os ricos nunca foram tão ricos e a miséria dos pobres nunca foi tão exposta.
Os países mais ricos necessitam dos pobres para lhes sugarem as matérias primas, venderem produtos, mas também para o fornecimento de mão-de-obra. O sistema passou a ser gerido a uma escala e numa lógica efectivamente global.
A nova economia tornou-se hegemónica, tem-se revelando capaz de tudo rentabilizar, inclusivé as actividades assistênciais.
As ajudas internacionais, os programas de apoio aos excluídos revelam-se hoje investimentos estratégicos em termos economicos. Depois da “Queda do Muro de Berlim”, o Capitalismo passa a ser apresentado como a única alternativa realista, mesmo para os que ainda sem mantém à margem. O objectivo é a Inclusão total.
6.1. Escola Inclusiva
A Declaração de Salamanca consagra um conjunto de princípios, que reflectem as novas políticas educativas, consagrando os seguintes princípios:
a)  O direito à educação é independente das diferenças individuais;
b) as necessidades educativas especiais não abrangem apenas algumas crianças com problemas, mas todas as que possuem  dificuldades escolares;
c) a escola é que deve adaptar–se às especifícidades dos alunos, e não o contrário;
d) o ensino deve ser diversificado e realizado num espaço comum a todas as crianças. É neste sentido que o Prof. Doutor David Rodrigues afirma que a escola inclusiva pressupõe o modelo de pertença a uma instituição, a uma casa comum. Passados quatro anos, o debate contínua. Pouco mais se avançou.
7. 7.      Conclusão
A educação nunca deixou de estar intimamente ligada a motivações de natureza econômica, política, religiosa ou mesmo filosófica. Desligar a educação deste campo de fundo é ignorar as causas profundas das suas mudanças. A história do ensino para deficientes é, neste capítulo, um dos exemplos mais ilustrativos do que acabamos de afirmar.
A exclusão tem predominado sobre a integração, e mesmo quando se fala desta última, é frequentemente para iludir as multíplas formas de segregação social.
As escolas inclusivas podem tornar-se em mais uma panaceia. Elas enfrentam já hoje alguns sérios problemas. Um deles é a difícil conciliação entre a necessidade de atenderem à diversidade dos alunos, sem diminuírem a qualidade do ensino. Um outro é o da própria reação dos pais e alunos ditos normais, para já não falar dos professores. A aceitação do Outro como um igual nunca foi pacífica.
Carlos Fontes
httpv://www.youtube.com/watch?v=Pwqv_uIOSGg


Quando olho uma criança ela me 

inspira dois sentimentos, ternura 

pelo que é, e respeito pelo que 

posso ser. "Jean Piaget"

Breve História da Educação Musical

Breve História da Educação Musical


 O ser humano vem fazendo música há muito tempo. Provas arqueológicas citadas por Menhuin e Davis (1990) sugerem que o homem primitivo usava tambores, flautas e ossos como instrumentos musicais, muito antes da Era Glacial. Os autores também afirmam que não se tem conhecimento a que se destinavam esses instrumentos de 300 séculos atrás, embora seja possível imaginar que eram utilizados em cerimônias e rituais, sacros e profanos. O homem primitivo comunicava-se por meio de sons e silêncios que traduziam informações objetivas,mas que provocavam também sentimentos e emoções.
 
De acordo com Brito (1998), no decorrer do processo de construção de cada cultura específica, o ser humano transformou em linguagem expressiva a relação (inicialmente utilitária e funcional) com o fenômeno sonoro, chegando à denominação atual do termo música como jogo de organização e relacionamento entre som e silêncio que acontece no tempo e espaço. Para a autora, a música é a “alquimia” que organiza sons de diferentes qualidades (graves ou agudos, curtos ou longos, fortes ou suaves, com texturas diversas), gera formas sonoras que expressam e comunicam emoções, sensações, percepções e pensamentos que refletem o modo de sentir, perceber e pensar de um indivíduo, de uma cultura ou época. É por isso que diferentes povos ou culturas possuem um repertório musical específico, cada um diferente do outro, assim como existem, na história da música, diferentes estilos e formas de composição.
Ainda segundo Brito (1998), a música é uma forma de linguagem que faz parte da cultura humana desde tempos muito remotos. Ela faz parte do conhecimento humano, é uma forma de expressão e comunicação e se realiza por meio da apreciação e do fazer musical. Entre as características da linguagem musical, é possível destacar o caráter lúdico, ressaltando-se que a música é um jogo de relações entre sons e silêncios; a existência de diferentes sistemas de composição musical; que o ruído pode ser, também, material musical e que a idéia musical é autônoma, pois nada expressa além de si mesma, comunicando informações objetivas.
Seguindo o pensamento de Brito (1998), é importante notar que as canções, brinquedos de roda, parlendas, trava-línguas sempre foram partes fundamentais do ato de brincar, do processo de formação da criança e da cultura infantil. Mesmo que o ambiente tenha mudado em função das novas tecnologias, é possível afirmar que a música sempre esteve presente na vida das crianças e, de certa forma, no seu processo de educação.
 
Entre os povos primitivos, a prática do ensinamento musical estava nas mãos de músicos especialistas capazes de transmitir os segredos de seu ofício para aqueles indivíduos a quem deveriam passar o cargo. Nessas sociedades primitivas, a música ocupou sempre um lugar de destaque e era considerada um veículo importante para que a comunidade e os indivíduos pudessem manifestar seus estados de ânimo e acompanhar, por conseguinte, o trabalho, os cultos religiosos e as festividades sociais.
 Nas antigas civilizações (chinesa, persa, hebraica), a música desempenhou uma função social e educativa com um grau de importância variável, ora para mais, ora para menos. Entre os gregos, a música alcançou um esplendor e uma importância inexistentes em qualquer outro povo. Entre eles houve uma clara consciência da necessidade de difundir a prática musical no seio da sociedade. A Grécia ofereceu para a história da humanidade um exemplo de como deveria ser considerada a educação musical: a música, que era ensinada desde a infância, era considerada um fator essencial na formação dos futuros cidadãos. Segundo Gainza (1964), para os gregos, a música educava e era a chave de uma filosofia pedagógica que, infelizmente, não tem se mantido viva ao longo das épocas e que, por isso, é preciso, periodicamente, ser redescoberta.
 
Na história da música do ocidente foi Guido D’Arezzo, um monge beneditino, quem primeiro se destacou por suas virtudes pedagógicas. Foi o criador de muitos recursos para o ensino da leitura e da escrita musical, muitos dos quais são usados até hoje. Ao longo da Idade Média, a educação musical esteve a cargo de monges e era realizada dentro dos mosteiros. Mais tarde, se organizou no ambiente das grandes catedrais e, junto com a aritmética, a geometria e a astronomia, expressou o espírito religioso da época.
 
No Renascimento, em especial durante a Reforma, houve necessidade de popularizar o ensino da música. A criação das escolas públicas e, por conseguinte, a extensão dos benefícios da cultura a um número maior de indivíduos ocasionaram nova estruturação à educação musical. Os métodos de ensino de música foram revisados porque era preciso agilizar o ensino a fim de que o conhecimento e a prática musical fossem acessíveis às pessoas comuns e não somente aos músicos. Luteranos e calvinistas concordavam em planejar uma educação musical para todas as crianças e jovens como na antiga Grécia.
 
Na história da educação musical é possível observar ciclos que se alternam: a um período de investigação e criação pedagógica, sucede-se outro de decadência e abandono. Para Gainza (1964), na educação musical há a convergência de duas tendências opostas: o racionalismo e o sensorialismo, que dão primazia à teoria e à prática musical respectivamente. Com o transcorrer do tempo, essas tendências assumem direções extremistas que ignoram por completo tudo que foi produzido segundo uma outra tendência.    Nesse sentido, racionalismo e sensorialismo puros em música conduzem a um empobrecimento que afeta profundamente o ensino: é tão nocivo ensinar teoria musical desvinculada da realidade sonora, quanto preparar os alunos para a execução vocal ou instrumental, sem relacionar essa prática com os fundamentos da arte musical.
 
De acordo com as pesquisas de Gainza (1964), Rousseau, no século XVIII, é o principal representante de uma inquietude pedagógica no campo musical.   Ele compôs numerosas canções para crianças e um de seus maiores objetivos foi difundir e popularizar a educação musical. A pedagogia musical se desenvolveu na França e apareceram novas correntes racionalistas dentro do campo da educação musical. E, como reação contra o intelectualismo, tendência essa que caracterizou o racionalismo do século XIX, aparecem os métodos ativos, como, por exemplo, o método Montessori, cujas raízes têm por base a linha de pedagogias sensoriais iniciadas por Komenski e Rousseau e continuada por Pestalozzi (1745-1827) e Froebel (1782-1852). As idéias desses autores influenciam também o ensino da pintura, das artes plásticas, da literatura e da música, abandonando as tendências tradicionalistas.
 Gainza (1964) afirma que, à medida que o círculo da educação geral e da cultura atingem um número maior de indivíduos, torna-se mais urgente a necessidade de reformular os métodos de ensino, de maneira que o conhecimento seja acessível a todas as pessoas, incluindo aquelas que não possuem habilidades especiais para a música. Os métodos tradicionais caíram em desuso quando houve tendência à popularização do ensino de música, e, sem dúvida alguma, isso aconteceu porque eles eram elaborados e dirigidos para indivíduos reconhecidos como "bem dotados".
 
Com o avanço do conhecimento psicológico, que chegou a desvendar com profundidade a personalidade infantil, a pedagogia musical moderna encontra-se hoje em condições de permitir pesquisas em bases mais sólidas. Os pedagogos musicais recorrem a novas idéias e as colocam em prática. A maioria dos métodos de educação musical parte de uma concepção mais completa e real da criança e quase todos, reconhecendo a importância do ritmo como elemento ativo da música, dão prioridade a atividades de expressão e criação. O que se vê, diz Gainza (1964), é uma revitalização do ensino musical. Os métodos apresentam uma forma de ensinar a música, de maneira que ela, sem perder a qualidade, possa resultar numa atividade prazerosa e atrativa para a criança. 

(Texto retirado do Projeto Pedagógico do Curso)




Educação musical - Valores da Música

Qual o valor da educação musical?


                                                                                         Gisely Brito de Oliveira


De acordo com Fonseca (1997, v.1, p.9), vivemos em um mundo onde valorizamos somente o que parece útil, onde existe a constante necessidade de rotular e classificar. Valorizamos o que é mais prático e simples, as ações são mais importantes que os desejos e os conceitos mais importantes que os sentimentos.
Neste contexto de valorizar o lado utilitário da vida os processos educativos buscam uma realidade estável e previsível, descartando o questionamento e a criatividade, com medo que estes causem tensões e situações imprevisíveis.
      Diante desta realidade é difícil expor a importância de algo que não é conceituável nem descritível. A música não significa nada além dela mesma, talvez seja este um dos motivos pelo qual ela está secundarizada e esquecida dentro da escola.
      Nas discussões sobre a importância da música na educação sempre se ouvi que a musica tem o poder de desenvolver a autoconfiança, a motivação, a inibição, a concentração, a autodisciplina, ajuda a formar fila, a fazer silêncio e muito mais.       Existem evidências que confirmam que a música realmente possui estas capacidades, mas será que estas são capacidades exclusivas da educação musical? Será que uma atividade escolar bem estruturada e embasada não conseguiria alcançar estes objetivos?
Existe uma diferença entre usar a música como recurso pedagógico e usar da música, da sua riqueza, do seu encantamento para se alcançar um objetivo.
      Acredito que o verdadeiro valor da educação musical não está apenas no fato dela auxiliar no desenvolvimento de outras atividades, mas sim no fato dela proporcionar a criança uma outra forma de linguagem, uma linguagem onde os sentimentos não são conceituáveis nem descritíveis. Por mais que busquemos palavras não conseguiremos transmitir o que a música pode proporcionar ao ser humano.
      A educação musical desenvolve o potencial imaginativo, a criatividade, a personalidade e, além disso, ela possui uma capacidade que é só dela, que é a capacidade de abrir a porta para uma outra forma de expressão. A expressão por meio dos sons, adquirida através da vivência musical e não das palavras.
 A música nos oferece uma variedade infindável de objetivos simbólicos que podem ser altamente reveladores e transformadores: ela enriquece o espírito, expandi nosso universo interior e refina a percepção crítica do ambiente que nos rodeia (FRANÇA, 2001, p. 2).



Referências Bibliográficas

KOELLREUTER, H. J. Educação Musical no Terceiro mundo: Função, Problemas e Possibilidades. In: KATER, Carlos (org). Cadernos de Estudo: Educação Musical. Belo Horizonte: Através/ EMUFMG/ FAPEMIG, v. 1, p. 1 – 8, 1997.

FONSECA, João Gabriel Marques. Porque Educação Musical. In: KATER, Carlos (org). Cadernos de Estudo: Educação Musical. Belo Horizonte: Através/ EMUFMG/ FAPEMIG, v. 1, p. 9 – 11, 1997.

FRANÇA, Cecília Cavalieri. Quem precisa de educação musical, Boletim UFMG, Belo Horizonte, p. 2, 2001.

Música: a Educação do Futuro!

Ouvir música não é só um entretenimento e uma medida para acalmar e relaxar – ela pode trazer diversos benefícios para a saúde, como alívio de dores, melhora da memória e até mesmo um estímulo para a prática de atividade física.
Além disso, funciona como um “remédio” para vários problemas, como mostraram a pediatra Ana Escobar e a musicoterapeuta Marly Chagas no Bem Estar desta quinta-feira (6).
Isso acontece porque a música ativa o centro de prazer do cérebro, assim como o sexo e o chocolate, por exemplo. Ela libera dopamina e causa uma sensação de bem-estar e, por isso, tem sido usada por médicos, terapeutas e preparados físicos como tratamento de diversos problemas – e tem trazido ótimos resultados.
Bem Estar - Infográfico sobre música x saúde (Foto: Arte/G1)

Em relação à atividade física, a música pode ajudar a embalar o exercício e torná-lo mais fácil e mais prazeroso, como mostrou a reportagem da Marina Araújo.
Segundo o músico e empresário Alexandre Casa Nova, a música é um estímulo importante para quem se exercita porque disfarça a sensação de fadiga, dor e cansaço e, no lugar, traz um sentimento bom de alegria e motivação, deixando a pessoa mais confortável.
A música ajuda a pessoa a se desligar das preocupações e, comprovadamente, facilitam o sono e combatem a insônia. Por outro lado, sons animados, energéticos e acelerados são bons durante a manhã para despertar e ajudar a acordar.
Há ainda o benefício da música durante o período de gestação – ela é capaz de acalmar os recém-nascidos e reduzir, por exemplo, em até dez dias a permanência deles na UTI neonatal, como mostrou a reportagem do Phelipe Siani (veja no vídeo abaixo).
Essa identificação dos pequenos com a música começa, no entanto, depois da 21ª semana de gestação, como explicou a pediatra Ana Escobar.
Isso porque, na 20ª semana, o aparelho auditivo do bebê, apesar de já estar pronto para receber vibrações sonoras, ainda tem o conduto auditivo externo bloqueado por um tecido de células que protege o desenvolvimento do tímpano. A partir da 21ª semana, essa parede se rompe, o tímpano entra em contato com o líquido amniótico e começa a receber e processar vibrações, fazendo com o que o bebê comece a ouvir.
Musicoterapia
O repórter Phelipe Siani mostrou a história do Edson, um garoto que foi diagnosticado com autismo aos 6 anos de idade. O menino tinha dificuldades para falar, mas na frente do videogame, costumava se soltar.
Por isso, os pais recorreram à musicoterapia, um tratamento que começou a deixar o Edson mais calmo, atento e com interesse pelo mundo em sua volta. Com o tempo, os resultados foram ainda melhores: ele começou a interagir com as pessoas, a cumprimentá-las e a procurá-las também – tudo reflexo da música dentro da vida do menino.

MUSICOTERAPIA DR.FEIJÃO Entrevista 60 minutos Dr. Feijão

Musicoterapia da Faculdades EST no programa Vida e Saúde da RBS TV

MUSICA & MUSICOTERAPIA: EDUCAÇÃO E SAÚDE

Os benefícios da música para saúde

Importância e função da música

Algo errado na educação

Conversação - PGM 1 - EDUCAÇÃO INCLUSIVA

Conversação - PGM 1 - EDUCAÇÃO INCLUSIVA

A Política Nacional para a Educação Inclusiva: Avanços e Desafios

Perfil do Educador Infantil

Música na educação infantil - a expressão musical e a criança de 0 a 5 anos

Importância e função da música

A Importância da Música

A esperança está onde menos se espera

Ao Mestre, Com Carinho - DUBLADO

Música na educação infantil - a expressão musical e a criança de 0 a 5 anos

Avaliação na Educação Infantil - legislação, pesquisas e práticas

Educação Infantil: Cuidar, Educar e Brincar

Educação Especial - MEC

Emocionante filme - Menino de Carvão - sem direito de ser

O Contador de Histórias O FILME

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Como Estrelas na Terra, Toda Criança é Especial - Assista e surpreenda-se!

Diante do Trono - Quem é Jesus

A Galinha Pintadinha 3 PARTE 1

Música Infantil - Eu conheço um jacaré

TEREZINHA DE JESUS - CONJUNTO E CORO INFANTIL CBS

23 CANTIGAS DE RODA - CARROUSSELL Verônica Mattos

PROJETO FOLCLORE BRINCADEIRAS E CANTIGAS DE RODA 0001

"Por Ensinar com artes, é melhor tentar fazer upload de conteúdos, na íntegra sem sentimentos ou sentido para a vida de uma criança, que vive em em mundo único de fantasia"

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Piaget


 JEAN PIAGET
José Luiz de Paiva Bello
Vitória, 1995


 Desde muito cedo Jean Piaget demonstrou sua capacidade de observação. Aos onze anos percebeu um melro albino em uma praça de sua cidade. A observação deste pássaro gerou seu primeiro trabalho científico. Formado em Biologia interessou-se por pesquisar sobre o desenvolvimento do conhecimento nos seres humanos. As teorias de Jean Piaget, portanto, tentam nos explicar como se desenvolve a inteligência nos seres humanos. Daí o nome dado a sua ciência de Epistemologia Genética, que é entendida como o estudo dos mecanismos do aumento dos conhecimentos. 
      Convém esclarecer que as teorias de Piaget têm comprovação em bases científicas. Ou seja, ele não somente descreveu o processo de desenvolvimento da inteligência mas, experimentalmente, comprovou suas teses.
 
      Resumir a teoria de Jean Piaget não é uma tarefa fácil, pois sua obra tem mais páginas que a Enciclopédia Britânica. Desde que se interessou por desvendar o desenvolvimento da inteligência humana, Piaget trabalhou compulsivamente em seu objetivo, até às vésperas de sua morte, em 1980, aos oitenta e quatro anos, deixando escrito aproximadamente setenta livros e mais de quatrocentos artigos. Repassamos aqui algumas idéias centrais de sua teoria, com a colaboração do “Glossário de Termos”.

      1 - A inteligência para Piaget é o mecanismo de adaptação do organismo a uma situação nova e, como tal, implica a construção contínua de novas estruturas. Esta adaptação refere-se ao mundo exterior, como toda adaptação biológica. Desta forma, os indivíduos se desenvolvem intelectualmente a partir de exercícios e estímulos oferecidos pelo meio que os cercam. O que vale também dizer que a inteligência humana pode ser exercitada, buscando um aperfeiçoamento de potencialidades, que evolui "desde o nível mais primitivo da existência, caracterizado por trocas bioquímicas até o nível das trocas simbólicas" (RAMOZZI-CHIAROTTINO apud CHIABAI, 1990, p. 3).

      2 - Para Piaget o comportamento dos seres vivos não é inato, nem resultado de condicionamentos. Para ele o comportamento é construído numa interação entre o meio e o indivíduo. Esta teoria epistemológica (epistemo
 = conhecimento; e logia = estudo) é caracterizada como interacionista. A inteligência do indivíduo, como adaptação a situações novas, portanto, está relacionada com a complexidade desta interação do indivíduo com o meio. Em outras palavras, quanto mais complexa for esta interação, mais “inteligente” será o indivíduo. As teorias piagetianas abrem campo de estudo não somente para a psicologia do desenvolvimento, mas também para a sociologia e para a antropologia, além de permitir que os pedagogos tracem uma metodologia baseada em suas descobertas.

      3 - “Não existe estrutura sem gênese, nem gênese sem estrutura” (Piaget). Ou seja, a estrutura de maturação do indivíduo sofre um processo genético e a gênese depende de uma estrutura de maturação. Sua teoria nos mostra que o indivíduo só recebe um determinado conhecimento se estiver preparado para recebê-lo. Ou seja, se puder agir sobre o objeto de conhecimento para inserí-lo num sistema de relações. Não existe um novo conhecimento sem que o organismo tenha já um conhecimento anterior para poder assimilá-lo e transformá-lo. O que implica os dois pólos da atividade inteligente: assimilação e acomodação. É assimilação na medida em que incorpora a seus quadros todo o dado da experiência ou estruturação por incorporação da realidade exterior a formas devidas à atividade do sujeito (Piaget, 1982). É acomodação na medida em que a estrutura se modifica em função do meio, de suas variações. A adaptação intelectual constitui-se então em um "equilíbrio progressivo entre um mecanismo assimilador e uma acomodação complementar" (Piaget, 1982). Piaget situa, segundo Dolle, o problema epistemológico, o do conhecimento, ao nível de uma interação entre o sujeito e o objeto. E "essa dialética resolve todos os conflitos nascidos das teorias, associacionistas, empiristas, genéticas sem estrutura, estruturalistas sem gênese, etc. ... e permite seguir fases sucessivas da construção progressiva do conhecimento" (1974, p. 52).

      4 - O desenvolvimento do indivíduo inicia-se no período intra-uterino e vai até aos 15 ou 16 anos. Piaget diz que a embriologia humana evolui também após o nascimento, criando estruturas cada vez mais complexas. A construção da inteligência dá-se portanto em etapas sucessivas, com complexidades crescentes, encadeadas umas às outras. A isto Piaget chamou de “construtivismo sequencial”.

      A seguir os períodos em que se dá este desenvolvimento motor, verbal e mental.

      A.
 Período Sensório-Motor - do nascimento aos 2 anos, aproximadamente. 
      A ausência da função semiótica é a principal característica deste período. A inteligência trabalha através das percepções (simbólico) e das ações (motor) através dos deslocamentos do próprio corpo. É uma inteligência iminentemente prática. Sua linguagem vai da ecolalia (repetição de sílabas) à palavra-frase ("água" para dizer que quer beber água) já que não representa mentalmente o objeto e as ações. Sua conduta social, neste período, é de isolamento e indiferenciação (o mundo é ele).

      B. Período Simbólico
 - dos 2 anos aos 4 anos, aproximadamente. 
      Neste período surge a função semiótica que permite o surgimento da linguagem, do desenho, da imitação, da dramatização, etc.. Podendo criar imagens mentais na ausência do objeto ou da ação é o período da fantasia, do faz de conta, do jogo simbólico. Com a capacidade de formar imagens mentais pode transformar o objeto numa satisfação de seu prazer (uma caixa de fósforo em carrinho, por exemplo). É também o período em que o indivíduo “dá alma” (animismo) aos objetos ("o carro do papai foi
 'dormir' na garagem"). A linguagem está a nível de monólogo coletivo, ou seja, todos falam ao mesmo tempo sem que respondam as argumentações dos outros. Duas crianças “conversando” dizem frases que não têm relação com a frase que o outro está dizendo. Sua socialização é vivida de forma isolada, mas dentro do coletivo. Não há liderança e os pares são constantemente trocados. 
      Existem outras características do pensamento simbólico que não estão sendo mencionadas aqui, uma vez que a proposta é de sintetizar as idéias de Jean Piaget, como por exemplo o nominalismo (dar nomes às coisas das quais não sabe o nome ainda), superdeterminação (“teimosia”), egocentrismo (tudo é “meu”), etc.

      C.
 Período Intuitivo - dos 4 anos aos 7 anos, aproximadamente. 
      Neste período já existe um desejo de explicação dos fenômenos. É a “idade dos porquês”, pois o individuo pergunta o tempo todo. Distingue a fantasia do real, podendo dramatizar a fantasia sem que acredite nela. Seu pensamento continua centrado no seu próprio ponto de vista. Já é capaz de organizar coleções e conjuntos sem no entanto incluir conjuntos menores em conjuntos maiores (rosas no conjunto de flores, por exemplo). Quanto à linguagem não mantém uma conversação longa mas já é capaz de adaptar sua resposta às palavras do companheiro.
 
      Os Períodos Simbólico e Intuitivo são também comumente apresentados como Período Pré-Operatório.

      D.
 Período Operatório Concreto - dos 7 anos aos 11 anos, aproximadamente. 
      É o período em que o indivíduo consolida as conservações de número, substância, volume e peso. Já é capaz de ordenar elementos por seu tamanho (grandeza), incluindo conjuntos, organizando então o mundo de forma lógica ou operatória. Sua organização social é a de bando, podendo participar de grupos maiores, chefiando e admitindo a chefia. Já podem compreender regras, sendo fiéis a ela, e estabelecer compromissos. A conversação torna-se possível (já é uma linguagem socializada), sem que no entanto, possam discutir diferentes pontos de vista para que cheguem a uma conclusão comum.

      E.
 Período Operatório Abstrato - dos 11 anos em diante. 
      É o ápice do desenvolvimento da inteligência e corresponde ao nível de pensamento hipotético-dedutivo ou lógico-matemático. É quando o indivíduo está apto para calcular uma probabilidade, libertando-se do concreto em proveito de interesses orientados para o futuro. É, finalmente, a “abertura para todos os possíveis”. A partir desta estrutura de pensamento é possível a dialética, que permite que a linguagem se dê a nível de discussão para se chegar a uma conclusão. Sua organização grupal pode estabelecer relações de cooperação e reciprocidade.

      5 - A importância de se definir os períodos de desenvolvimento da inteligência reside no fato de que, em cada um, o indivíduo adquire novos conhecimentos ou estratégias de sobrevivência, de compreensão e interpretação da realidade. A compreensão deste processo é fundamental para que os professores possam também compreender com quem estão trabalhando.
 
      A obra de Jean Piaget não oferece aos educadores uma didática específica sobre como desenvolver a inteligência do aluno ou da criança. Piaget nos mostra que cada fase de desenvolvimento apresenta características e possibilidades de crescimento da maturação ou de aquisições. O conhecimento destas possibilidades faz com que os professores possam oferecer estímulos adequados a um maior desenvolvimento do indivíduo.
 
      “Aceitar o ponto de vista de Piaget, portanto, provocará turbulenta revolução no processo escolar (o professor transforma-se numa espécia de
 ‘técnico do time de futebol’, perdendo seu ar de ator no palco). (...) Quem quiser segui-lo tem de modificar, fundamentalmente, comportamentos consagrados, milenarmente (aliás, é assim que age a ciência e a pedagogia começa a tornar-se uma arte apoiada, estritamente, nas ciências biológicas, psicológicas e sociológicas). Onde houver um professor ‘ensinando’... aí não está havendo uma escola piagetiana!” (Lima, 1980, p. 131).

      O lema “o professor não ensina, ajuda o aluno a aprender”, do Método Psicogenético, criado por Lauro de Oliveira Lima, tem suas bases nestas teorias epistemológicas de Jean Piaget. Existem outras escolas, espalhadas pelo Brasil, que também procuram criar metodologias específicas embasadas nas teorias de Piaget. Estas iniciativas passam tanto pelo campo do ensino particular como pelo público. Alguns governos municipais, inclusive, já tentam adotá-las como preceito político-legal.
 
      Todavia, ainda se desconhece as teorias de Piaget no Brasil. Pode-se afirmar que ainda é limitado o número daqueles que buscam conhecer melhor a Epistemologia Genética e tentam aplicá-la na sua vida profissional, na sua prática pedagógica. Nem mesmo as Faculdades de Educação, de uma forma geral, preocupam-se em aprofundar estudo nestas teorias. Quando muito oferecem os períodos de desenvolvimento, sem permitir um maior entendimento por parte dos alunos.


http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/ppiage01.jpg 
Jean Piaget



Referências
CHIABAI, Isa Maria. A influência do meio rural no processo de cognição de crianças da pré-escola: uma interpretação fundamentada na teoria do conhecimento de Jean Piaget. São Paulo, 1990. Tese (Doutorado), Instituto de Psicologia, USP. 165 p. 

LIMA, Lauro de Oliveira.
 Piaget para principiantes. 2. ed. São Paulo: Summus, 1980. 284 p. 

PIAGET, Jean.
 O nascimento da inteligência na criança. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. 389 p.